Seis da manhã e eu aqui esperando ônibus para Santo Antônio do Sul. Tenho que arrumar um lugar pra ficar lá, se não eu to fodido.
Detesto pegar ônibus cedo. Mas acho que ninguém gosta. Eu podia sentir que esse dia ia ser uma merda. Enfim, uma lata de coca-cola e quinze minutos depois o ônibus chega.
- Já era hora também. – Um sujeito que estava esperando na rodoviária falou lá de trás.
Eu estava no terminal B-14. O ônibus tinha atrasado uns vinte minutos, então de fato, já era hora dele chegar.
- Tchau mãe. – Dei-lhe um beijo na face. Virei para meu pai.
- Fica com Deus pai.
- Você também filho. Boa sorte em Santo Antônio.
Abracei meu pai e subi direto para o ônibus. Não levava mais que uma mochila com algumas mudas de roupa. Minha mudança definitiva só ia acontecer depois que achasse moradia lá.
O ônibus estava às moscas. Exceto por um sujeito qualquer que também esperava o ônibus, éramos eu, o motorista e o auxiliar.
Tudo pronto. Finalmente essa merda de ônibus ia sair.
- Moço! Espera! – Surge ao longe a figura de uma moça de saia. - Esse ônibus é da São Cristóvão?
O motorista estranhou, e disse que sim. Nada de especial, ela. Exceto por suas pernas. Longas e grossas, ela fazia questão de mostrá-las. Fitei-a por algum tempo, imaginei ela em várias posições. De repente meus pensamentos são bruscamente interrompidos pelo ônibus que começa a andar.
Eu estava sentado mais ou menos no meio do ônibus, e ela algumas poltronas à frente. Usava uma camisa da empresa de ônibus. Era a mesma do motorista e auxiliar. Olhei para janela e por algum tempo fiquei concentrado na paisagem que passava rapidamente. Santo Antônio do Sul ficava bem longe de onde eu morava. Enfim, isso não é importante.
Já era tarde e meus pensamentos acabam novamente se voltando para a moça do ônibus. Que pernas. Não importa seu rosto, seus seios, nada. Se eu pudesse ter aquelas pernas estava satisfeito.
O ônibus faz uma parada em um restaurante. Já deviam ser umas duas da tarde agora. Eu desço e compro um salgado e volto para o ônibus. Decidi mudar para outro lugar, já que o sol estava batendo diretamente na minha poltrona.
Olhei ao redor do ônibus. Só eu havia voltado. Fui novamente para o fundo do ônibus, e fiquei lá esperando. Quinze, vinte, trinta minutos já haviam se passado. Tão quão penso em me levantar chegam o motorista e o auxiliar.
- Caramba não sei mais o que faço com minha mulher. – O motorista falou em tom melancólico.
Eu ignorei a conversa e ponderei onde estava a dona daquelas pernas. Pouco tempo depois ela chegou e se sentou na primeira poltrona. Dali eu podia vê-la perfeitamente, sem que ela notasse que eu estava olhando. Parece que essa viagem não ia ser de todo ruim.
O motorista fecha a porta que divide a cabine e o corredor dos passageiros. Notei certa inquietação na moça com roupa da empresa. Ela nervosa e continuamente olhava para os lados. Seu rosto parecia mais corado do que o normal. Espremi os olhos mas ainda assim não podia ver muito.
Coloquei parte de minha cabeça para fora pude vê-la melhor, pelo enorme retrovisor do ônibus. Pude ver que seu braço estava ligeiramente para dentro da saia. Mas não acreditei que aquilo poderia acontecer.
Levantei-me e fui até o banheiro, batendo a porta ao entrar. Lavei meu rosto e olhei no espelho, mas ainda assim não acreditava no que havia visto. Provavelmente não era o que pensei, e minha mente de fato anda bastante poluída ultimamente.
Ao sair do banheiro fiz questão de me sentar exatamente no mesmo lugar. A curiosidade foi muito mais forte que eu, e novamente olhei-a através do retrovisor. Ela nervosamente olhou para os lados e mordeu os lábios. Sua mão entrava e saía lentamente de dentro da saia.
Seu rosto estava suado. Não, minha mente não estava poluída, mas prestes a ficar um pouco mais. Papai do céu estava generoso hoje.
Deu um sorriso e fiz o possível para permanecer imperceptível. Em toda minha vida, nunca tinha me acontecido nada assim. Pensei na minha namorada.
- Cara, mulher é tudo vagabunda mesmo.
Por mais estranho que pareça, ela lembrava minha namorada.
- Aposto que a cachorra da Júlia já deve estar com outro agora. Ela vai ver também, quando chegar vou arrumar uma vagabunda pra me vingar daquela vaca.
O tempo passava e eu estava hipnotizado por aquela mulher. Em alguns momentos, ela deixava escapar pequenos gemidos. Por fim, ela se esticou toda e tombou a cabeça sobre os ombros.
E eu, já todo suado, olhei para cima e agradeci aos céus por esse presente. Pro inferno com a Júlia, com Santo Antônio do Sul, com meus pais, com tudo. Eu tinha que tê-la. Levantei-me novamente e fui até o banheiro.
Lavei o meu rosto e respirei fundo. Olhei novamente no espelho e ensaiei um sorriso. Do nada o ônibus para, sabe lá deus por que. Eu escuto o barulho da porta abrindo, e olho pela janela. De relance, pude ver a masturbadora saindo e ouvi-la falando com o motorista e auxiliar.
Desesperei-me e tentei abrir a porta do lavatório. A desgraçada estava emperrada, e por mais que tentasse não conseguia abri-la. De tão nervoso, perdi a voz. Com uma mão, o universo te dá um presente, e com a outra tira-o impiedosamente.
Para meu completo e total desapontamento, o ônibus sai. Vinte minutos depois, o auxiliar abre a porta.
- Meu deus você está bem?! Você está chorando! – Ele parecia legitimamente preocupado comigo. Difícil ver isso hoje em dia.
- Eu nunca mais vou vê-la. Nunca mais!
- Quem?! Do que você ta falando? – Gritos de confusão se confundiam com meus soluços de lamento.
Engoli meu choro. Sequei minhas lágrimas com a camisa.
- Aquela mulher... Eu nunca mais vou vê-la.
O auxiliar olhou com estranheza.
- Que mulher? – Ele franziu as sobrancelhas ao perguntar.
Olhei-lhe fundo nos olhos.
- Aquela que saiu a pouco. A masturbadora do ônibus.
Nenhum comentário:
Postar um comentário