A viagem tinha sido tensa. Não aquela tensão natural de viagens de carro, essa foi realmente escrota.
Tal tensão é, creio eu, inevitável quando se trata de viagens muito longas. Esse clima pesado é inerte à situação – é impossível ficar quatorze horas num carro sem que haja constrangimento.
- Porra Anderson! Encosta essa merda e pede informação!
- Mas que merda Andressa! Já falei que eu sei pra onde eu estou indo!
- Sabe o caralho! Larga de ser filho da puta e pergunta logo alguém!
Viu? Esse é o tipo de constrangimento do qual falei, aquele inerte às longas viagens. Enfim.
- Puta que pariu Andressa! Bem que minha mãe avisou que eu não devia ter ficado com você! Vai tomar no seu CU!
- Quer saber? Vai se fuder. VAI SE FUDER!
(...)
Eu explico a situação. Eu conheci a Andressa num bar em Niterói, e acabei gostando dela. Trepada vai trepada vem, nós acabamos namorando e indo morar juntos.
Minha querida mãe foi contra desde o início, e eu devia ter escutado ela. Bem que ela falou que ela não era flor que se cheirasse. É uma santa, minha mãe. Mulher pura, dócil e muito, muito bem prendada.
Mamãe era daquelas católicas fervorosas, que iam à igreja todos os domingos, e estava sempre ajudando na paróquia.
Logo que juntei os trapos com a Andressa, eu vi que ela não era nada como a Mamãe. Ela cozinhava mal, e era muito desleixada. Essa vaca disse que se negava a acordar algumas horas mais cedo para preparar café! Ultrajante!
E ainda por cima, falou que não ia largar o trabalho para poder cuidar da casa! E que se tivéssemos filhos, ela contrataria alguém para poder ajudar! Ah... Eu devia ter ouvido à minha mãezinha.
Por sinal, que saudade dela. Mulher incrível. Nunca vi mais pura! Ela sim daria uma maravilhosa esposa!
Peço desculpas por esse breve devaneio, sempre que fico nervoso penso em minha mãe. Ela sempre me acalma.
Bom, voltando à situação inicial. O clima entre nós não estava dos melhores, então sugeri que fizéssemos uma viagem juntos. Nós íamos passar uma semana em uma cidadezinha histórica no interior.
Infelizmente tenho que admitir que eu não tenho a ínfima idéia de onde estou. Mas recuso-me a dar o braço a torcer para a Andressa. Simplesmente porque sei que ela se acharia superior se eu o fizesse.
Eu decidi então inventar alguma desculpa para parar em um lugar qualquer, e sem que ela visse, pedir informação.
- Andressa, amor.
- Não fode Anderson! Fala comigo quando resolver ouvir a Razão.
- VAI TOMAR NO CU ANDRESSA! POR QUE VOCÊ NÃO PODE SER QUE NEM A MAMÃE?!
- Porra Anderson, se você gosta TANTO assim dela vai lá e FODE COM ELA!
- CALA A BOCA SUA VAGABUNDA!
Com uma força sobre-humana eu me segurei para não socar a cara da cachorra. Como ousa ela falar assim dessa SANTA que é mamãe.
Mais uma vez pensei na minha mãe. Esse truque nunca falha, e acabei me acalmando.
Olhei pro lado e a Andressa estava com a mão na testa, balançando a cabeça. Ela estava vermelha de raiva. Por fim reclinou-se e ficou olhando a paisagem.
Uns vinte minutos depois vi uma daquelas placas típicas de estrada. Era um pneu pendurado em um pau.
“BURRACHARIA”
Perfeito. Vou falar que deu problema no óleo, e que preciso parar para comprar um pouco. É absolutamente perfeito!
- Ou, Andressa.
- (...)
Ela simplesmente olhou para mim com os olhos furiosos e voltou-se para a janela. Míseros segundos depois, se virou de volta, deu um sorriso e me mostrou o dedo do meio.
Mamãe. Mamãe. Mamãe. Pronto... Já estou mais calmo.
Passaram-se alguns minutos e vi a entrada para a borracharia.
- Resolveu escutar a razão e pedir informação?
- Eu já disse que sei para onde estou indo. Só parei para pegar um pouco de óleo, porque não tem reserva.
Ela virou os olhos e encostou a cabeça na cadeira.
Parei o carro do outro lado da estrada, para garantir que ela não escutaria nada. Saí do carro e bati a porta bem forte, de propósito.
Cheguei na borracharia e não tinha ninguém. O lugar era, na melhor das circunstâncias, um cafofo. As fendas nas paredes formavam uma complexa rede parecida com teias de aranha. Tinha um Opala parado com o capô aberto, e uma poça de óleo gigantesca embaixo.
O lugar parecia ter parado no tempo. A coisa mais nova que vi foi um calendário, de 1994. Era daqueles típicos de borracharia mesmo.
O calendário estava no mês de março. A foto era de uma mulher de costas, com uma bunda absolutamente enorme. Ela usava um biquini tão pequeno que não seria possível esconder um grão de feijão embaixo daquilo.
O calendário ficava em uma parede, com os dizeres “RAINHA DOS BORRACHERO” em cima. Na base, tinha uma caixa escrito “Lembranças”.
Toquei uma campainha em cima do balcão e esperei. Ninguém deu as caras. Movido pela curiosidade, fui passando as páginas do calendário.
Conforme passava as páginas, as posições iam ficando cada vez mais obscenas. Em nenhum momento o rosto da modelo aparecia.
Era degradante ver uma mulher daquele jeito. Se não fosse por mamãe, eu acho que pensaria que todas as mulheres do mundo eram assim. Ainda bem que o bom Deus ainda cria mulheres puras como mamãe, e não como a vagabunda da Andressa.
Abril, Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro, Outubro e Novembro. Os meses passavam e a dignidade caía. Por fim, cheguei a dezembro.
(...)
- Não... Não pode ser.
Meu corpo todo tremia. Só podia ser coincidência.
Não... Era impossível. Meus olhos pregavam uma peça em mim. É a única explicação. A moça do calendário, era idêntica à minha querida mamãe. Mas mãezinha nunca se deixaria fazer isso. Era um truque.
Em estado de choque, olhei para a caixa que ficava abaixo do calendário. Aquele que estava escrito “Lembranças”.
Com as mãos tremendo, abri-a. Fechei os olhos e peguei uma revista que tinha lá dentro.
Levantei-a até a altura de meus olhos. Estava ajoelhado como em frente a um altar.
“ENSAIO ESPECIAL COM SUZANA – A RAINHA DOS BORRACHEIROS!”
- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO!!!!!!!
Soltei um grito gutural, bem do fundo da minha alma. Continuei pegando as revistas.
“Suzana – A Rainha dos Borracheiros TIRA TUDO!”
“Brasileirinhas – A Rainha dos Borracheiros x Kid Bengala”
Como pode? Minha própria mãe... Rainha dos Borracheiros. Como ela pode ter mentido assim para mim?
Em um acesso de raiva chutei a caixa com tudo que tinha dentro, e rasguei ferozmente as revistas.
Atravessei a estrada de volta até o outro lado, tremendo. Continuava em choque.
- Eu aposto que sua mãe não teria deixado você esquecer-se de trazer óleo reserva, não é Anderson?
- NUNCA MAIS FALA DESSA VAGABUNDA DE NOVO! ESSA VACA MORREU PRA MIM!
sábado, 28 de março de 2009
domingo, 22 de março de 2009
Um Funcionário Público, Parte I.
Todos os dias, precisamente às 23h15min, eu ia para a cama. Às 23h45min eu adormecia. Eram ossos do ofício. Depois de dezesseis anos trabalhando como funcionário público, o marasmo do trabalho acaba por invadir todos os aspectos da sua vida.
Todos os dias, precisamente entre às 23h15min e 23h45min eu pensava sobre minha vida. Pensava, pensava e pensava; mas não conseguia traçar os passos que levaram minha vida a terminar desse jeito.
Meu grande sonho era ser Médico. Dr. Anderson – Médico Foda. Seria uma pessoa feliz, teria uma esposa feliz e dois filhos felizes.
Me lembro que quando era novo, tinha começado o cursinho e estava realmente motivado. Estava estudando pra caralho, era um dos melhores alunos do cursinho.
Mas o mundo é um lugar fodido, e essa merda adora dar voltas. Eu não consegui passar no vestibular, e acabei passando em um concurso da prefeitura. Acabei até esquecendo que queria fazer faculdade, ser feliz, ter uma esposa feliz.
Me contentei com meu serviço burocrático, de 9h às 15h. Me contentei com a filha da puta da minha esposa, e meus filhos cretinos.
Mas como disse, o mundo é fodido e essa merda dá voltas. Esta noite, não fui me deitar às 23h15min, e logo não adormeci às 23h45min.
Eu havia criado coragem, e dado um jeito na minha vida. Tinha eliminado aquilo que me segurava.
Primeiro matei as crianças, cada qual com um tiro na testa. Fiquei com dó delas, mas era preciso. Por sorte, elas não fizeram pirraça desta vez.
Quando chegou a vez da esposa, me senti inspirado. Amarrei-a na cama e subi no colchão. Ela tentou gritar, mas a mordaça que fiz com uma meia foi bem eficiente.
Cuspi na cara dela, e depois baixei a calça até o joelho. Urinei na cara da desgraçada e chutei a cabeça dela algumas vezes. Pisei nela mais algumas vezes só para garantir a reza.
Por fim atirei na cabeça dela. O sangue cagou o quarto inteiro.
Enfim, tomei o último gole do meu uísque vagabundo e respirei fundo. Calmamente coloquei o copo no chão, próximo ao meu pé. Coloquei minha boca no cano da espingarda e puxei o gatilho.
(...)
Tinham acabado as balas. Tomei a liberdade de interpretar isso como um sinal divino. No dia seguinte, fui até a sede do curso pré-vestibular e fiz minha matrícula. Minha vida estava finalmente se ajeitando.
Todos os dias, precisamente entre às 23h15min e 23h45min eu pensava sobre minha vida. Pensava, pensava e pensava; mas não conseguia traçar os passos que levaram minha vida a terminar desse jeito.
Meu grande sonho era ser Médico. Dr. Anderson – Médico Foda. Seria uma pessoa feliz, teria uma esposa feliz e dois filhos felizes.
Me lembro que quando era novo, tinha começado o cursinho e estava realmente motivado. Estava estudando pra caralho, era um dos melhores alunos do cursinho.
Mas o mundo é um lugar fodido, e essa merda adora dar voltas. Eu não consegui passar no vestibular, e acabei passando em um concurso da prefeitura. Acabei até esquecendo que queria fazer faculdade, ser feliz, ter uma esposa feliz.
Me contentei com meu serviço burocrático, de 9h às 15h. Me contentei com a filha da puta da minha esposa, e meus filhos cretinos.
Mas como disse, o mundo é fodido e essa merda dá voltas. Esta noite, não fui me deitar às 23h15min, e logo não adormeci às 23h45min.
Eu havia criado coragem, e dado um jeito na minha vida. Tinha eliminado aquilo que me segurava.
Primeiro matei as crianças, cada qual com um tiro na testa. Fiquei com dó delas, mas era preciso. Por sorte, elas não fizeram pirraça desta vez.
Quando chegou a vez da esposa, me senti inspirado. Amarrei-a na cama e subi no colchão. Ela tentou gritar, mas a mordaça que fiz com uma meia foi bem eficiente.
Cuspi na cara dela, e depois baixei a calça até o joelho. Urinei na cara da desgraçada e chutei a cabeça dela algumas vezes. Pisei nela mais algumas vezes só para garantir a reza.
Por fim atirei na cabeça dela. O sangue cagou o quarto inteiro.
Enfim, tomei o último gole do meu uísque vagabundo e respirei fundo. Calmamente coloquei o copo no chão, próximo ao meu pé. Coloquei minha boca no cano da espingarda e puxei o gatilho.
(...)
Tinham acabado as balas. Tomei a liberdade de interpretar isso como um sinal divino. No dia seguinte, fui até a sede do curso pré-vestibular e fiz minha matrícula. Minha vida estava finalmente se ajeitando.
terça-feira, 3 de março de 2009
A Maior Farsa Do Mundo.
Eu estava bem cético quanto a sua existência. Eu não sou uma pessoa muito normal, aliás, não sou nada normal. Claro, normalidade é algo totalmente relativo. Digamos que sou relativamente excêntrico, então.
E estava relativamente cético quanto a sua existência. Dela, digo eu. Eu dificilmente me interesso por outras pessoas. Não é que eu seja um misantropo ou algo da natureza, é que na maioria das vezes, simplesmente não acho as pessoas interessantes.
Elas geralmente têm personalidades pré-fabricadas, e falam de assuntos que interessam a pessoas pré-fabricadas. E até hoje, posso contar nos dedos as pessoas interessantes que conheci.
Por isso, fiquei abismado ao conhecê-la. Foi tudo uma grande coincidência, diga-se de passagem.
Meu sábado tinha começado como qualquer outro sábado. Levantei-me ressaqueado, tomei uma mão de analgésicos e fiz um café. Bebi o café. Iniciei meu computador e liguei meu programa de mensagem instantânea. Alguém havia tentado me adicionar. Estranhei, já havia um bom tempo que ninguém me adicionava à lista de contatos.
- Oi... Quem é você, por favor? – Escrevi, e de imediato desconfiei que fosse algum hacker incompetente tentando me passar um vírus.
- Oi, eu sou a Lorena. Eu vi seu MSN em algum lugar e decidi te adicionar.
Enganei-me, não era um hacker incompetente, mas provavelmente um pré-adolescente sem mais o que fazer que não se fingir de mulher. Decidi cooperar, era sábado a tarde e eu estava entediado.
- Prazer Lorena, eu sou o Anderson. Enfim, você faz o quê? – Me reclinei sobre a poltrona e estiquei as pernas. Esperei um pouco.
- Eu sou estudante, faço curso de Letras na UFRGS.
Parei um pouco e pensei. Balancei a cabeça em negação, argumentei que o fato dela(e) fazer letras não queria dizer que ela era interessante. Resolvi estender a conversa, não custava nada afinal.
- Você deve gostar de literatura então, não é? – Duvido que algum pré-adolescente sem mais o que fazer vá conhecer literatura de verdade. Esse será o teste de ferro.
- Sim, eu gosto muito de Hemingway, Machado de Assis, Veríssimo, Bukowski. Gosto de escrever poesias também. Adoro o Vinícius de Moraes. – Tudo bem. Talvez não fosse ela fosse real. Mas eu permanecia desconfiado.
E permaneci desconfiado. Mas depois de um tempo, acabei aceitando o fato de que ela não só era real, como era sem dúvida a menina mais foda que conheci. Desconheço palavra melhor que “foda” para descrevê-la.
Em todos os aspectos possíveis, ela era perfeita. Seu rosto podia não ser o mais lindo de todos, mas tinha beleza característica, e pelo que tinha descrito para mim seu corpo era tão belo quanto sua face. Além disso, ela se assimilava a mim em todos os quesitos.
Tinha gosto musical refinadíssimo. Digo isso não só pelo fato dela escutar grandes mestres, como Bob Dylan e David Bowie. Ela também tocava violão e cantava.
Tinha talento literário. De verdade. Tudo bem, talvez seja só a paixonite falando. Mas eu admirava seus textos.
Era impressionante como ela não falhava em nenhum quesito. Acabei me apaixonando perdidamente por ela. Sem nunca tê-la visto. Meu modus operandi havia mudado, não era mais o Anderson racional, e sim mais um imbecil apaixonado. Um imbecil feliz.
Esqueci de comentar. Eu vivo em uma cidade chamada São Jurandir do Porto Velho. Daqui até Porto Alegre, são aproximadamente 2618 Km. Decidi que iria até lá vê-la. Comprei minha passagem São Jurandir – Porto Alegre, o ônibus sairia daqui a quatro dias, o que me daria tempo de preparar tudo.
Passei toda a tarde ansioso, esperando para poder falar com ela. Finalmente, ela ficou online.
- Adivinha... To indo aí te visitar. – Esse foi o Anderson não-racional falando. O Anderson racional já estava enterrado no fundo do meu subconsciente.
- Você ta de brincadeira comigo? – Eu li a mensagem e dei um sorriso abestalhado.
- Daqui a quatro dias eu pego o ônibus e vou aí te visitar. Sem brincadeira!
- Nossa que maravilhoso! Vou me preparar pra você então. Vou te esperar na rodoviária e daí agente resolve o que faz!
Preparei tudo. Roupas, dinheiro, programas. Meu coração batia com antecipação, chegou finalmente o dia em que iria conhecer Lorena, a menina mais perfeita que já conheci.
Entrei no ônibus, e esperei. Esperei, esperei e esperei. É uma viagem absurdamente longa. Inevitavelmente, caí no sono e, inevitavelmente sonhei com ela. Apesar de que foi um sonho estranho, já que ainda não sabia como ela era.
Na última parada antes da chegada final, comecei a suar como um animal. Estava demasiadamente nervoso. Fui até o bar e pedi logo quatro doses de cachaça. Engoli as quatro a seco.
- Dá mais quatro. – O balconista franziu a testa e relutantemente serviu-me as outras doses. Na saída, comprei uma garrafinha de uísque nacional.
Cerca de duas horas depois, cheguei à Rodoviária Internacional de Porto Alegre. Tropecei para fora do ônibus e sentei-me em um canto, junto a minha fiel garrafa.
Uma moça loira passa e joga alguns trocados. Não era ela. Passaram-se quinze minutos e finalmente, ouço alguém falando acima de mim.
- Desculpa o atraso, Anderson... Você está bem?
- É você, Lorena?
- Sim. – Fechei meus olhos, e me apoiei na parede para levantar. Dei nela um beijo cinematográfico, que pareceu durar uma eternidade.
A esta altura já estava completamente anestesiado pelo álcool. Não sabia direito o que estava acontecendo. Só lembro que ela pegou minha mão e me levou até um quarto abafado de motel.
Fizemos sexo por um tempo. Eu admito, não vi nada. Quando acordei, ela estava deitada debaixo da coberta. Coloquei a mão na cabeça e aos poucos fui me situando. Levantei o lençol e lá estava ela.
Não era nada do que tinha dito. Ela devia pesar uns cem quilos, e faltava-lhe um olho na face. Estava completamente nua na cama, as pelancas e estrias causadas pela obesidade eram óbvias.
Meu estômago embrulhou. O rádio-relógio despertou, tocando “It’s All Over Now Baby Blue”.
Afundei meu rosto nas mãos e cai em prantos pela morte de minha dignidade. Aquela que estava deitada não era Lorena, a menina mais perfeita do mundo. Aquela era Lorena, a maior farsa do mundo.
E estava relativamente cético quanto a sua existência. Dela, digo eu. Eu dificilmente me interesso por outras pessoas. Não é que eu seja um misantropo ou algo da natureza, é que na maioria das vezes, simplesmente não acho as pessoas interessantes.
Elas geralmente têm personalidades pré-fabricadas, e falam de assuntos que interessam a pessoas pré-fabricadas. E até hoje, posso contar nos dedos as pessoas interessantes que conheci.
Por isso, fiquei abismado ao conhecê-la. Foi tudo uma grande coincidência, diga-se de passagem.
Meu sábado tinha começado como qualquer outro sábado. Levantei-me ressaqueado, tomei uma mão de analgésicos e fiz um café. Bebi o café. Iniciei meu computador e liguei meu programa de mensagem instantânea. Alguém havia tentado me adicionar. Estranhei, já havia um bom tempo que ninguém me adicionava à lista de contatos.
- Oi... Quem é você, por favor? – Escrevi, e de imediato desconfiei que fosse algum hacker incompetente tentando me passar um vírus.
- Oi, eu sou a Lorena. Eu vi seu MSN em algum lugar e decidi te adicionar.
Enganei-me, não era um hacker incompetente, mas provavelmente um pré-adolescente sem mais o que fazer que não se fingir de mulher. Decidi cooperar, era sábado a tarde e eu estava entediado.
- Prazer Lorena, eu sou o Anderson. Enfim, você faz o quê? – Me reclinei sobre a poltrona e estiquei as pernas. Esperei um pouco.
- Eu sou estudante, faço curso de Letras na UFRGS.
Parei um pouco e pensei. Balancei a cabeça em negação, argumentei que o fato dela(e) fazer letras não queria dizer que ela era interessante. Resolvi estender a conversa, não custava nada afinal.
- Você deve gostar de literatura então, não é? – Duvido que algum pré-adolescente sem mais o que fazer vá conhecer literatura de verdade. Esse será o teste de ferro.
- Sim, eu gosto muito de Hemingway, Machado de Assis, Veríssimo, Bukowski. Gosto de escrever poesias também. Adoro o Vinícius de Moraes. – Tudo bem. Talvez não fosse ela fosse real. Mas eu permanecia desconfiado.
E permaneci desconfiado. Mas depois de um tempo, acabei aceitando o fato de que ela não só era real, como era sem dúvida a menina mais foda que conheci. Desconheço palavra melhor que “foda” para descrevê-la.
Em todos os aspectos possíveis, ela era perfeita. Seu rosto podia não ser o mais lindo de todos, mas tinha beleza característica, e pelo que tinha descrito para mim seu corpo era tão belo quanto sua face. Além disso, ela se assimilava a mim em todos os quesitos.
Tinha gosto musical refinadíssimo. Digo isso não só pelo fato dela escutar grandes mestres, como Bob Dylan e David Bowie. Ela também tocava violão e cantava.
Tinha talento literário. De verdade. Tudo bem, talvez seja só a paixonite falando. Mas eu admirava seus textos.
Era impressionante como ela não falhava em nenhum quesito. Acabei me apaixonando perdidamente por ela. Sem nunca tê-la visto. Meu modus operandi havia mudado, não era mais o Anderson racional, e sim mais um imbecil apaixonado. Um imbecil feliz.
Esqueci de comentar. Eu vivo em uma cidade chamada São Jurandir do Porto Velho. Daqui até Porto Alegre, são aproximadamente 2618 Km. Decidi que iria até lá vê-la. Comprei minha passagem São Jurandir – Porto Alegre, o ônibus sairia daqui a quatro dias, o que me daria tempo de preparar tudo.
Passei toda a tarde ansioso, esperando para poder falar com ela. Finalmente, ela ficou online.
- Adivinha... To indo aí te visitar. – Esse foi o Anderson não-racional falando. O Anderson racional já estava enterrado no fundo do meu subconsciente.
- Você ta de brincadeira comigo? – Eu li a mensagem e dei um sorriso abestalhado.
- Daqui a quatro dias eu pego o ônibus e vou aí te visitar. Sem brincadeira!
- Nossa que maravilhoso! Vou me preparar pra você então. Vou te esperar na rodoviária e daí agente resolve o que faz!
Preparei tudo. Roupas, dinheiro, programas. Meu coração batia com antecipação, chegou finalmente o dia em que iria conhecer Lorena, a menina mais perfeita que já conheci.
Entrei no ônibus, e esperei. Esperei, esperei e esperei. É uma viagem absurdamente longa. Inevitavelmente, caí no sono e, inevitavelmente sonhei com ela. Apesar de que foi um sonho estranho, já que ainda não sabia como ela era.
Na última parada antes da chegada final, comecei a suar como um animal. Estava demasiadamente nervoso. Fui até o bar e pedi logo quatro doses de cachaça. Engoli as quatro a seco.
- Dá mais quatro. – O balconista franziu a testa e relutantemente serviu-me as outras doses. Na saída, comprei uma garrafinha de uísque nacional.
Cerca de duas horas depois, cheguei à Rodoviária Internacional de Porto Alegre. Tropecei para fora do ônibus e sentei-me em um canto, junto a minha fiel garrafa.
Uma moça loira passa e joga alguns trocados. Não era ela. Passaram-se quinze minutos e finalmente, ouço alguém falando acima de mim.
- Desculpa o atraso, Anderson... Você está bem?
- É você, Lorena?
- Sim. – Fechei meus olhos, e me apoiei na parede para levantar. Dei nela um beijo cinematográfico, que pareceu durar uma eternidade.
A esta altura já estava completamente anestesiado pelo álcool. Não sabia direito o que estava acontecendo. Só lembro que ela pegou minha mão e me levou até um quarto abafado de motel.
Fizemos sexo por um tempo. Eu admito, não vi nada. Quando acordei, ela estava deitada debaixo da coberta. Coloquei a mão na cabeça e aos poucos fui me situando. Levantei o lençol e lá estava ela.
Não era nada do que tinha dito. Ela devia pesar uns cem quilos, e faltava-lhe um olho na face. Estava completamente nua na cama, as pelancas e estrias causadas pela obesidade eram óbvias.
Meu estômago embrulhou. O rádio-relógio despertou, tocando “It’s All Over Now Baby Blue”.
Afundei meu rosto nas mãos e cai em prantos pela morte de minha dignidade. Aquela que estava deitada não era Lorena, a menina mais perfeita do mundo. Aquela era Lorena, a maior farsa do mundo.
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