segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sábado à Noite, em Curitiba.

Mais um sábado à noite se aproxima; mais uma noite solitária nessa cidade fria. O sol se põe e a Cidade Sorriso cerra seus lábios e lança-me um olhar de desprezo – tento relevar.

Em meio a seus prédios repletos de pessoas friamente felizes, no topo de um edifício, um relógio de neon: 18:15; 9ºC.

Não ligo para o que dizem os nativos, está frio pra caralho. Mas é fato: se não estivesse tão mal de saudade, não estaria tão gélido quanto um cadáver.

Em meio ao vento que me corta a face, persisto bravamente – preciso me entorpecer, como de costume. Preciso esperá-la, como de costume.

Ao longo da rua XV, as curitibanas exercem seu charme blasé. Tento disfarçar minha miséria. Em vão – minhas lentes escuras falham em esconder a tristeza no meu cerne. Do fundo do poço, cavo um pouco mais. De dentro do buraco, monto minha casinha.

E lá de baixo, apóio minha cabeça e olho as pessoas passarem. Torço por um pouco de compaixão; relembro amor o que já tive. Esforço fútil – nem o mais fatal dos sorrisos consegue ofuscar a aura de fracasso que me cerca e repele a todos.

Adentro o mercado. Não estou afim de tomar porre de vinho, e logo me vejo em busca de um uísque barato.

Devo dizer – as coisas aqui são meio caras pra cacete. Não tenho dinheiro nem pra um uísque fodido. Gasto um tempo invejando os malditos americanos. Pelo menos lá, o lixo deles é meu luxo – elevado ao cubo.

Jamel, 51, Ypióca? Dúvida cruel. Tal dilema enfurece meu estômago. Presidente, talvez? Acho que não – desisto após ver o rótulo que não diz “Conhaque”, mas “Aguardente com gengibre”.

Me dirijo à saída e dou meia-volta, só pra garantir – e realmente, as coisas aqui são meio caras pra cacete. Juro que não é culpa do meu complexo de pobreza.

Tento pensar em alguma loja de bebidas por perto - nenhuma me vêm a cabeça. Que merda. Pelo andar da carruagem, noto que esta noite não será perdida em devaneios ébrios e apaixonados. Nada de me abraçar ao meu travesseiro; nada de relembrar aqueles beijos com sabor de cafézinho.

Hora do plano B. Vago pela aparentemente indevassável Praça Osório em busca de alguém que me possa vender um bagulho. Na verdade esse era – a priori – o plano A. Na verdade mesmo, o plano A costuma ser sempre esse.

Mas havia me desencorajado a fazê-lo. Estava decidido a manter a pouca dignidade que me restava.

E a Praça Osório se mostra de fato indevassável – naquela hora da noite. Tudo que
vejo são pessoas de bem – crianças, idosos e mães. Me sinto mau, e logo mal. Não gosto de ser a maçã podre do cesto.
Próxima parada: Praça Rui Barbosa. Eu tinha, de fato, esperança de encontrar algo lá. Tinha mesmo.

Me enganei. Caminhei por entre suas árvores, lojas e fonte – tudo em vão.

Me ocorre que Curitiba é relamente muito limpa, bonita e alegre. Me sinto mais mau, e mais mal. Descendo ainda mais na minha espiral pessimista – vivo na melhor cidade do Brasil, sozinho.

De que valem todos os parques, praças e ruas maravilhosas; se me falta o amor de uma pessoa? Me sinto cada vez mais vazio – e quanto mais vazio, mais preciso me preencher. Na falta de afeto, caço com gato.

Era hora de ir para o lugar que me advertiram a evitar: a Praça Eufrásio Correa. Mas não de mãos abanando: Comprei um maço de cigarros no caminho.

Aos não entendidos, explico: se quer drogas, o cigarro é um aliado inestimável. Antes de chegar, acendi um e me entreguei ao êxtase cancerígeno.

Devagar, rondei a praça. De longe, noto uma viatura da polícia em ação. Mas, quem sabe, ainda teria sorte.


Passo pela fonte, e logo noto um maluco qualquer sentado com uma garrafa vazia sob o banco. Passo por ele. E o cigarro, faz seu trabalho.

– Moço, você tem fogo aí?

– Claro maluco, toma aí. – Acendi seu cigarro, apontei para o banco e lhe perguntei se podia lhe acompanhar.

– Claro, sem problema.

Ele estava sujo, e gaguejava enquanto falava. De momento em momento, tremia todo o corpo. Se eram seqüelas do crack, frio, ou ambos, não sei.

Esse era um daqueles momentos em que você se pergunta como sua mãe se sentiria te vendo naquela situação. Preferia não pensar nisso. Apesar de eu ser em parte, fruto da omissão dela ao terror psicológico promovido por meu pai, não guardo ressentimento – ela sempre foi uma ótima mãe.E, de modo algum, merecia uma decepção como essa que vos escreve.

Mas, como disse, é melhor não pensar nisso. Só deixa a merda toda mais fétida.

– Então, na real, você sabe quem tem um bagulho pra vender aí? – Costumo ser bem direto ao lidar com esses tipos.

– Não sei. Não sei. Não sei. Um cara aí, comprou cincão hoje mais cedo. Mas o cara não tá aqui na praça mais.


Puta que pariu. Cheguei atrasado. Terminei o cigarro e, com certa cautela, apertei sua mão. Me despedi e vaguei mais um tempo.

Eu realmente preciso de alguém. A solidão, a falta de carinho, a carência de afeto. É uma morte quase burocrática – longa, complexa e sem desvios ou atalhos. Bom, até existem atalhos, mas e a esperança?

Voltei para casa, muito pior do que saí. Me deitei sóbrio na cama, me encolhi sob as cobertas e esperei por ela.
Caí no sono, e sonhei com ela.

Mas passadas as poluções, já sabia: ela nunca ia chegar.