A Última Coçada na Barriga.
Cheguei do trabalho exausto, como de costume. Haviam-me feito carregar caixas o dia todo. Minha coluna estava doendo, como de costume. Há muito tempo haviam acabado-se meu vigor e também meus analgésicos. Meu salário estava atrasado, mas já não tinha mais a rebeldia inerente aos jovens para reivindicá-lo.
Decidi aguardar calmamente, afinal pagamento atrasado é melhor que pagamento nenhum.
Subi vagarosamente as escadas, meus joelhos também doíam. Já era sexta-feira, o que me forneceu certo reconforto. Já com as pálpebras pesadas, abri a porta do meu cortiço.
- Cheguei.
Ninguém respondeu. Eu já sabia que não responderiam, não tenho ninguém com quem compartilhar minha vida – ou moradia. Mas por alguma razão, gostava de pensar que de fato tinha.
Mas enfim, hoje a noite seria especial. Hoje eu daria umazinha, já havia aproximadamente três semanas que não gozava. Peguei um copo que estava sujo de café e despejei um uísque vagabundo, bebi todo de um gole. Fiz uma cara feia e senti certa ânsia de vômito, abri a geladeira e não tinha muita coisa. Normal.
Tinha uma caixinha com um resto de creme de leite, tinha vencido há meras duas semanas, portanto não fiz grande caso. Estava ligeiramente rançoso, joguei um pouco de água da torneira e misturei com o dedo. Ajudava a disfarçar o gosto do álcool.
Eu sempre fui meio fresco com esse tipo de coisa, característica que me rendeu incontáveis zoações ao longo de minha juventude. Quando era novo eu detestava quando comprávamos garrafas de vodca barata para bebermos na rua, então importunava meus amigos para que pelo menos comprássemos também refrigerante ou suco em pó. Meu fígado hoje faz questão de me lembrar dessas noites.
Tirei meu maço de cigarros do bolso da camisa, que por sinal já estava totalmente desabotoada, mostrando minha pança em toda sua glória. Acendi um e dei uma tragada, deixando a fumaça sair pelas narinas. Uma sensação boa correu meu corpo.
Coloco o cigarro sobre o cinzeiro e o deixo queimar. Vale a pena dizer que agora minhas calças já se foram, para voltar apenas na segunda-feira de manhã. O mesmo vale para meus incômodos sapatos, que agora não mais apertam meus pés inchados de gota.
Atravesso o apartamento até o meu quarto. Conecto alguns cabos e ligo o computador, faço o caminho de volta e me sento no tamborete da cozinha. Continuo de onde parei, tragando meu cigarro e bebendo meu uísque com aquilo que me forcei a chamar de leite.
Percebi que estava com fome. Vasculhei a dispensa da cozinha, em vão. Não havia nada realmente substancial lá, meu dinheiro havia acabado há duas semanas. Abri a geladeira e a corri com os olhos, de cima a baixo, mas tudo que encontrei foi um pote com feijão velho. Coloquei-o numa panelinha e esquentei no fogão. Peguei um resto de farinha de mandioca e despejei impiedosamente.
Estava com um gosto péssimo, mas que diferença fazia? Depois de algumas décadas, você se acostuma. Conforme os anos passam você começa a se acomodar, para de se importar com aquele gosto amargo no fundo da garganta, com as ressacas, rugas e tudo mais. Pelo menos meu pau ainda funcionava como uma máquina.
Aliás, era a única coisa que eu ainda tinha pela qual valia a pena me gabar. Tudo bem, eu não fodia ninguém havia alguns anos. Até algum tempo atrás, conseguia fazer sobrar dinheiro o bastante para comer uma puta barata. Mas sexo grátis era algo que estava creditado apenas a jovens viris e velhos ricos.
O que me restava eram minhas mãos calejadas e grossas. Já faz muito tempo que essas mãos são as únicas responsáveis por satisfazer minha libido, ainda que forçadas.
Mas ainda assim, meu pau funcionava melhor que o de qualquer moleque de vinte e poucos anos. Isso a velhice não tinha tirado de mim, mas era triste saber que só eu teria a honra de vê-lo em ação. Mas apesar disso, sentia-me de certo modo privilegiado.
Terminei minha patética refeição, e pateticamente fui até o meu quarto, onde o computador funcionava agora com potência total. Abri o Google e refleti por algum tempo. Durante uma infinidade de segundos, olhei a tela do buscador. Estava refletindo sobre com o que iria fantasiar nesta agradável noite de sexta.
Ao longo dos anos, já me aventurei por vários ramos da pornografia. ANÃS, ZOOFILIA, CREAMPIES, BRASILEIRAS, AMADORAS, GANG BANG, BONDAGE... A lista continua. De tempos em tempos eu mudava meus hábitos masturbatórios. Sabe, só para não cair numa rotina.
Há algumas semanas tinha visto um daqueles programas que mostram destinos turísticos exóticos, onde você sempre sonha em ir, mas sabe que nunca irá. Bom, deixa isso de lado. O importante era que falou sobre Bangkok, Tailândia.
Disseram que a cidade era famosa por sua vida noturna, mostraram bares e locais turísticos tradicionais. Mas o que mais me chamou a atenção foi que a cidade era particularmente famosa pela prostituição, tipo uma Amsterdã asiática.
Como pode eu nunca ter ouvido falar disso? O programa mostrou algumas profissionais e fez uma breve entrevista com uma delas. Eu admito nunca ter sido louco por asiáticas. Mas acabei ficando curioso, e já estava na época de mudar novamente de “gosto”. Seria unir o útil ao agradável, de certo modo.
Iniciei meu navegador e abri um site de busca. Ponderei sobre a melhor forma de localizar aquilo que procurava. Ponderei mais, e concluí:
“PUTAS DE BANGKOK, PORNÔ, HARDCORE”
Toda a ponderação de muito me valeu. De pronto encontrei um portal com vários links para sites estrangeiros. Infelizmente eram todos pagos, mas sempre tem aqueles vídeos de cinqüenta segundos, que são que nem amostra grátis de um vinho caro: Você adora e compraria se pudesse, mas no fim sabe que vai acabar enchendo a cara com suco de uva e vodca.
Acendi mais um cigarro. O cinzeiro tinha ficado na cozinha, então usei uma caneca que tinha ficado no quarto. Traguei e tentei escolher um entre os vários links, nunca fui bom com decisões difíceis.
De todo modo, não faria muita diferença, eu ainda teria tempo para poder avaliar um a um os sites. Eu falava um pouco de inglês, mas só o jargão técnico. Eu sabia coisas como “WHORE”, “FUCK”, “BITCH”, “TEEN”, “PUSSY”, “COCK” (...)
São as coisas que você aprende com o tempo. Até arranhava algumas palavras em Alemão, do tempo que freqüentava fóruns de sexo amador da Alemanha. Pra falar a verdade, só ficava rolando as páginas até encontrar algum link e torcia para que fosse bom. Algumas vezes eram bons, outras nojentos e algumas vezes imasturbáveis.
Consegui escolher um site. Ao que tudo indica, tinha sido a aposta certa. Geralmente a essa altura já estaria latejando de animação, mas não hoje. Sequer consegui arrancar um ínfimo formigamento.
Li um pouco sobre a premissa do site, para ver se as coisas davam uma melhorada. Basicamente, os produtores procuravam putas diretamente nas ruas de Bangkok, as levavam para um motel e filmavam a foda. Parecia emocionante, mas não para meu amiguinho. O filho da puta parecia não querer trabalhar hoje, mesmo depois de três semanas de férias.
Ultimamente ele tinha andando meio preguiçoso, mas hoje não devia ser assim. Porra, ele ficou vinte e três dias por conta apenas de fazer volume e mandar privada abaixo o que sobrou do que eu bebia.
Tentei dar um tapinha ou dois. Continuou inoperante, portanto decidi ir direto para a parte boa. Li algumas sinopses e olhei algumas fotos, mas por fim escolhi um dos vídeos ao acaso. Enquanto carregava, tentei acariciá-lo um pouco – já que com violência não tinha funcionado.
Fiquei olhando pra ele completamente concentrado, milhões de possíveis soluções corriam a minha mente. Todas elas, no entanto, tinham a mesma essência. Sou surpreendido por um gemido longo e agudo – havia me esquecido do vídeo, que começou agora a tocar.
Reclinei-me sobre a poltrona, dei uma bela cusparada na mão e dei início ao procedimento padrão. Passaram-se os 53.37 segundos do vídeo, e nada. Passaram-se novamente outras duas vezes. Continuava flácido. Num ato vão, troquei o vídeo.
Esforcei-me ao máximo, mas tudo que conquistei foram uma dor ao longo do braço e um soco acidental no escroto.
Estava cansado, frustrado e suado. Fechei bruscamente o site em que estava, e decidi procurar por algo com o qual já era familiarizado. Durante as duas inesgotáveis horas que se sucederam, passei por praticamente toda vertente do entretenimento adulto por mim conhecido - Inútil, meu pênis havia entrado em uma greve permanente. A culpa é dos bolcheviques, a culpa sempre é dos bolcheviques.
Me levantei ainda arrasado. Arrastei meu corpo de volta até a cozinha, onde minha fiel garrafa de uísque me aguardava. Sentei e bebi e fumei. Mal percebi o tempo passar, só quando o sol veio entrando pela janela da cozinha reparei que a noite tinha terminado. Assim como meu álcool e meus cigarros.
Voltei para o quarto, Sábado era o dia de colocar o sono em dia. Passei pela porta do quarto e olhei para o lado, meu computador ainda estava ligado. Não pude deixar de ver as várias janelas com sites eróticos abertas.
Fiquei ali as fitando por um momento e por fim deitei na cama, de modo a ficar olhando meu teto tomado por teias de aranhas. Senti vontade de chorar, mas homens não choram.
A velhice havia chegado sem misericórdia. E sem misericórdia ela chegará a todos. Permaneci deitado algum tempo, depois caí num breve cochilo.
Tentei fazer as pazes com a situação, apesar de que ainda inconfortável e inconformado. Coloquei uma meia e um chinelo, um agasalho velho. Fui até praça que havia próxima dali.
Me sentei junto a um grupo de velhos que liam o jornal e jogavam damas. Fiquei ali sentado e aguardei a morte chegar.