domingo, 22 de março de 2009

Um Funcionário Público, Parte I.

Todos os dias, precisamente às 23h15min, eu ia para a cama. Às 23h45min eu adormecia. Eram ossos do ofício. Depois de dezesseis anos trabalhando como funcionário público, o marasmo do trabalho acaba por invadir todos os aspectos da sua vida.

Todos os dias, precisamente entre às 23h15min e 23h45min eu pensava sobre minha vida. Pensava, pensava e pensava; mas não conseguia traçar os passos que levaram minha vida a terminar desse jeito.

Meu grande sonho era ser Médico. Dr. Anderson – Médico Foda. Seria uma pessoa feliz, teria uma esposa feliz e dois filhos felizes.

Me lembro que quando era novo, tinha começado o cursinho e estava realmente motivado. Estava estudando pra caralho, era um dos melhores alunos do cursinho.

Mas o mundo é um lugar fodido, e essa merda adora dar voltas. Eu não consegui passar no vestibular, e acabei passando em um concurso da prefeitura. Acabei até esquecendo que queria fazer faculdade, ser feliz, ter uma esposa feliz.

Me contentei com meu serviço burocrático, de 9h às 15h. Me contentei com a filha da puta da minha esposa, e meus filhos cretinos.

Mas como disse, o mundo é fodido e essa merda dá voltas. Esta noite, não fui me deitar às 23h15min, e logo não adormeci às 23h45min.

Eu havia criado coragem, e dado um jeito na minha vida. Tinha eliminado aquilo que me segurava.

Primeiro matei as crianças, cada qual com um tiro na testa. Fiquei com dó delas, mas era preciso. Por sorte, elas não fizeram pirraça desta vez.
Quando chegou a vez da esposa, me senti inspirado. Amarrei-a na cama e subi no colchão. Ela tentou gritar, mas a mordaça que fiz com uma meia foi bem eficiente.

Cuspi na cara dela, e depois baixei a calça até o joelho. Urinei na cara da desgraçada e chutei a cabeça dela algumas vezes. Pisei nela mais algumas vezes só para garantir a reza.

Por fim atirei na cabeça dela. O sangue cagou o quarto inteiro.

Enfim, tomei o último gole do meu uísque vagabundo e respirei fundo. Calmamente coloquei o copo no chão, próximo ao meu pé. Coloquei minha boca no cano da espingarda e puxei o gatilho.

(...)

Tinham acabado as balas. Tomei a liberdade de interpretar isso como um sinal divino. No dia seguinte, fui até a sede do curso pré-vestibular e fiz minha matrícula. Minha vida estava finalmente se ajeitando.

Um comentário:

Igor;20 disse...

Isso me faz lembrar uma certa pessoa, leia-se minha mãe.
Uma enfermeira (leia-se iwannabeadoctor) funcionária pública que dorme às 23e15.