Tudo bem, eu confesso. Eu ainda era virgem nesse assunto. Mas estava prestes a ser deflorado.
- É sua primeira vez aqui? Você parece nervoso. - Essa era Marininha Love. Eu não sei o nome real dela, nem pretendo saber. Aquele deve ser o codinome de trabalho.
- É, é sim. – E esse fui eu: Anderson Marins.
- E aí, o que você faz da vida?
- Eu sou escritor.
- Ah sim, mas qual seu trabalho? - Sequer preciso dizer que fiquei chateado com o comentário.
- Não, meu trabalho é escrever, sabe? Crônicas, artigos, esse tipo de coisa.
- Não sabia que isso era trabalho. Enfim, o que alguém que nem você ta fazendo num puteiro fudido que nem esse?
Foi uma boa pergunta. Não tinha a mínima idéia. Para aqueles que não me conhecem eu tenho um metro e setenta e poucos. Patologicamente magro. Míope e excêntrico.
A essa altura do campeonato, ela já estava tirando a roupa e deitando na cama. Não foi uma visão que eu queira recordar. Marininha Love – não se deixem levar pelo nome – era uma morena baixinha e gorda. Classe? Nenhuma. Cultura? Menos ainda. Vai ver era disso que eu precisava.
- Eu estou buscando novas experiências. – Ela me olhou com certo desdém.
- Escuta, se quiser fazer esquisitices eu cobro extra. Da última vez que um cliente falou que queria novas experiências eu acabei tendo que tirar um corpo estranho da bunda.
- Não, não é isso. É que minha vida não tem absolutamente emoção nenhuma. O tédio está consumindo minha alma criativa.
É por isso que vim aqui, para tentar dar emoção à minha vida. Eu preciso de experiências novas para relatar em meus textos.
- Escuta bofe, se quiser ficar aí falando tudo bem. Eu cobro por hora. Você vai querer trepar comigo ou não hein?
Ela realmente era boa com perguntas, isso eu tenho certeza. Eu não estava certo se queria de fato fazer aquilo. Quem sabe com quantos homens ela tinha ficado essa noite?
Mas uma atração pelo desconhecido me compelia a ela. Mal acreditava eu que estava prestes a fazer aquilo.
- Eu acho que não tenho escolha. – Fechei os olhos e avancei vulva adentro.
A princípio não senti nada. Depois de um tempo, o ruído agudo do colchonete com esqueleto de madeira começou a me irritar. O cheiro de suor e o bafo de cigarros e conhaque barato me levaram ao limite de minha paciência.
- Olha, esquece. Foda-se isso. Eu arrumo outra coisa pra escrever sobre. – Marininha recuperou o fôlego, levantou-se da cama e ficou de frente a mim.
- Você que sabe. Se você não quer tudo isso aqui, há quem queira. Pode me pagar e ir embora que tenho mais clientes esperando. – Nota do autor: Por “tudo isso aqui”, leia-se celulite em excesso, cancro mole e seios caídos.
Paguei a ela seus trinta e cinco reais.
- Talvez eu escreva sobre você. Se quiser eu te mando uma cópia depois.
- Eu sou analfabeta.
Rolei os olhos, me virei e fui embora.
Quatro da manhã. Passaram-se algumas horas que estou sentado em frente ao computador. Nada.
Chego à conclusão que minha epopéia no prostíbulo não rendeu absolutamente nada. Realmente, minha vida é um tédio.
Mais alguns minutos de reflexão e começo a escrever. Não, não estou escrevendo sobre minha monótona vida de escritor. Desta vez estou escrevendo sobre um personagem que é a absoluta antítese de meu ser. Não é muito original, mas pelo menos paga as contas.
4 comentários:
A ficção é mesmo uma realidade melhorada.
Continue assim jovem, quem sabe algum dia vc consegue 35 reais sendo escritor e use isso para conseguir "inspiração".
Fato igor! hehehehehe
"realidade melhorada"
Ficou bom, bem existencialista e Sartriano ainda!
Ah, raromundomio.blogspot.com
Como você pediu.
vlw ^^
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